A tortura da timidez.

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O problema cresce numa sociedade em que todos precisam aparecer e o ambiente de trabalho exige dinamismo. Veja esta reportagem da revista Época.

No século das celebridades e dos reality shows, em que a regra é aparecer a qualquer preço, quem mais sofre é o tímido. Na escola ou no trabalho, na vida social ou numa simples paquera de bar, exige-se que as pessoas tomem a frente, mostrem a cara, apareçam. E só quem sabe vender sua imagem sai vitorioso. Um estudo do professor Thomas Harrell, da Faculdade de Administração de Stanford, comprova essa tese. Depois de analisar por dez anos a trajetória profissional de uma turma de formandos de Stanford, Harrell apontou a fluência verbal como a única característica comum entre os bem-sucedidos. E uma das maiores dificuldades do tímido é justamente falar em público, ser o centro das atenções. Pesquisas mostram que, no mundo, o contingente de pessoas com esse perfil aumentou de 40% para 48% na última década. É isso mesmo: praticamente metade da população do planeta relata sofrer de timidez em alguma fase da vida. Não é à toa que surgem clínicas especializadas, livros de autoajuda, cursos e até remédios. ''Esse número só tende a aumentar com a pressão cada vez maior de uma sociedade exibicionista como a nossa'', disse a ÉPOCA o professor Bernardo Carducci, diretor do Instituto de Pesquisas Relacionadas à Timidez da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e autor do best-seller Timidez.

Engana-se quem pensa que a internet trouxe algum alento aos tímidos. Ao se esconder atrás de mensagens eletrônicas, eles enfrentam cada vez menos o contato pessoal. Além disso, os avanços tecnológicos aceleraram o ritmo de tudo e de todos. Exigem-se rapidez e velocidade em todas as situações. Ninguém tem paciência para nada. ''Perdemos a tolerância com quem precisa de mais tempo para tomar decisões'', explica Carducci. ''E uma das características do tímido é justamente demorar para aquecer. Nesse clima, ele sai duplamente prejudicado: não tem o tempo de que precisa para se manifestar e é criticado por isso.''

No ambiente profissional, a cobrança é intensa. ''A maioria dos chefes e colegas de trabalho é pouco paciente com quem demora para esquentar os motores'', analisa o sociólogo José Pastore, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP). São comuns as avaliações apressadas sobre o funcionário tímido: ''Ele é boa gente, mas é devagar demais…''. ''É verdade que, dada a natureza trepidante do mundo do trabalho, a timidez pode tornar as pessoas menos eficientes'', diz Pastore. ''Mas, uma vez superada a dificuldade inicial, os tímidos entram de cabeça nas tarefas e procuram ser os melhores.'' Outro aspecto que vem prejudicando os tímidos é a nova organização das empresas. Privilegia-se o trabalho em equipe, a cooperação interna. Quem é reservado demais para compartilhar tarefas acaba excluído do grupo - e do mercado.

Ainda não se sabe ao certo a origem da timidez. Estudos recentes revelam que 20% dos bebês choram e ficam nervosos quando subitamente expostos a barulhos intensos. A Ciência descobriu que a maioria deles se torna tímida. Uma parte dos especialistas credita a timidez a situações ocorridas na infância: pais críticos e exigentes que cobram muito e raramente elogiam os filhos; crianças que sofreram algum tipo de humilhação ou perseguição de colegas. Diferenças culturais explicam por que alguns povos são mais tímidos que outros. No Japão, onde os pais são secos e severos, a timidez atinge 60% das pessoas. Israel, por sua vez, tem o menor número de tímidos do planeta: 30%. Reza a cultura local que os pais reconheçam e elogiem as conquistas dos filhos. Também se encara a timidez como comportamento aprendido. Nesse caso, o modelo pode ter sido a observação dos parentes ou um conjunto de situações nas quais a criança é incentivada a se portar com timidez - por exemplo, quando se exige que ela fique muito quieta, e obedecer à ordem gera elogios.

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Ao certo, sabe-se que o traço desponta na adolescência. Cobrados pelo grupo, pelos pais e pela sociedade - e com os hormônios a todo o vapor -, muitos jovens se encolhem como um avestruz sem saber como se comportar. Também saem perdendo nas escolas, que exigem alunos cada vez mais participativos. Mesmo tendo a resposta a uma pergunta na ponta da língua, os tímidos nunca levantam a mão. ''Na hora de apresentar trabalhos e seminários, apesar de ter ensaiado bastante antes, decorado minha parte e falar tudo rapidinho, eu ficava vermelha, suava, sentia frio na barriga e dor no estômago'', conta a estudante Amanda Azevedo, de 18 anos, que reconhece ter deixado de aproveitar muita coisa na vida por causa da timidez. ''Sempre fiz de tudo para não chamar a atenção. Como sou muito magra, vivia escondida nos cantos da escola. Quando algum desconhecido aparece, eu travo; simplesmente não consigo falar.''

Nessa fase da vida, quem mais sofre é o garoto, porque, culturalmente, ainda se espera que ele tome a frente na hora da paquera. ''É tamanha a pressão que o adolescente acaba alimentando uma timidez porque não consegue tomar a iniciativa'', explica o professor Aílton Amélio, do Instituto de Psicologia da USP. ''Muitos acabam casando com a primeira namorada séria por temer passar pelo stress da paquera novamente'', diz a psicóloga Mariângela Gentil Savóia, do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas de São Paulo. O estudante Bruno Ribeiro de Santana, de 17 anos, só ''fica'' com quem ele já conhece. ''Fico tão vermelho que não dá para paquerar uma desconhecida'', confessa. Bruno não consegue falar com estranhos - seja para pedir informação na rua, seja para encomendar uma pizza pelo telefone. Escolhido para orador da turma na formatura, vai levar o discurso num papel e ficar olhando só para baixo. ''Mesmo assim, vou tremer.'' (...)

Na maioria dos casos, o tímido tem dificuldade para se apresentar em público e falar com estranhos, principalmente do sexo oposto ou autoridades. No ranking das situações mais constrangedoras estão: receber elogios, pedir aumento ao chefe, negociar preços e fazer qualquer tipo de reclamação. É importante não confundir timidez com introversão. O tímido sofre porque quer se socializar, participar da festa com os amigos, da discussão com os colegas de trabalho. Ele simplesmente acha que não consegue. Já a pessoa introvertida enfrenta tranquilamente todas essas situações, mas, se tiver a opção, prefere ficar em casa lendo um livro ou fazendo o dever sozinha, conforme explicação do psicólogo Sérgio André Segundo, diretor da Clínica do Amor e Timidez, em São Paulo. Estudos mostram que 53% dos tímidos têm dificuldade para se apresentar a alguém; 40% enfrentam problemas para fazer amigos, mas só 7% não conseguem ficar íntimos de terceiros. ''Vencida a barreira inicial, o tímido tem até mais facilidade para estreitar uma amizade, porque ele é verdadeiro'', diz Sérgio Segundo.

Por medo de serem rejeitadas, as pessoas tímidas tendem a aceitar sempre o que o grupo decide, numa estratégia de submissão. Para ficar mais desinibidas, apelam para a bebida ou as drogas. ''Costumo dizer que a timidez é solúvel em álcool'', afirma o psicólogo Aílton Amélio. ''Pessoas mais retraídas correm o risco de se viciar porque se acostumam a só se soltar com uma bebidinha'', diz. Outros tímidos adotam um comportamento negativo, anti-social. ''Zangados por serem deixados de lado pelo grupo, eles assumem um sentimento de superioridade perante o mundo'', analisa Carducci. ''Chamo esse grupo de tímidos cínicos: querem se vingar de todos por uma inabilidade que é só deles.'' (...)

A timidez não é um defeito e só precisa ser combatida quando a pessoa se sente prejudicada. ''O que determina a indicação de tratamento é o grau de sofrimento e os prejuízos causados pela timidez'', afirma Marcio Bernik, psiquiatra do Hospital das Clínicas. O tratamento mais indicado é a terapia cognitivo-comportamental, que combate a ansiedade e o pensamento derrotista e treina o tímido para enfrentar as situações que lhe metem medo. ''Treinamos as habilidades sociais, ou seja, como expressar sentimentos, fazer e receber críticas, comportar-se em grupo'', explica a psicóloga Mariangela Savoia.

Aulas de expressão corporal e vocal também ajudam. O empresário Harley de Souza, de 33 anos, entrou para um curso de teatro há três e não se arrepende. Dono de uma empresa de informática, ele, tímido desde criança, trabalha com o público no dia-a-dia. ''Tinha muita dificuldade, mas o palco me desinibiu'', conta. (...)

fonte: Revista Época - 29/Março/2004

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