Imagine a seguinte situação: Um competente profissional alcança um dos mais altos degraus na hierarquia de poder de uma grande empresa. Desde que lá entrou, ainda jovem, demonstrou a cada obstáculo que surgia sua competência e capacidade técnica.
A cada ano era mais admirado e respeitado, não só pelos seus parceiros de empresa, como também por seus concorrentes. Ele se tornara um mestre, conhecedor profundo em sua área de atuação. Certo dia ele é convidado a falar de sua experiência e trajetória de sucesso. Sente-se lisonjeado, é um vencedor. Uma platéia formada por jovens profissionais espera ansiosa por ouví-lo. Tirar dele o máximo de aprendizado, como venceu as dificuldades da profissão, ouvir seus cases.
O grande dia chega, bem vestido, ele aguarda o momento de “entrar em cena“. Na platéia, além dos jovens profissionais, também estão lá o presidente de sua empresa, diretores, convidados ilustres, professores, técnicos.
Tudo parece perfeito para que o “show” comece. Por fora seu rosto está sorridente, tentando aparentar calma, mas por dentro... Bem, por dentro, um vulcão de emoções expele lavas de temores incontroláveis que sua razão e todo o conhecimento em sua área não conseguem sossegar. Embora conheça alguns truques de oratória e de como posicionar-se frente a uma platéia, isso agora parece não ser o suficiente para acalmá-lo. Ele começa a palestra com a voz trêmula, mãos suadas, anda de um lado para o outro, perde-se no que diz, tem brancos sobre o que veio falar, além da pouca espontaneidade de gestos. Pensa se está conseguindo agradar a platéia, se estão achando que ele é um idiota.
O homem de sucesso, que durante sua carreira valeu-se de sua confiança para conquistar degraus importantes, agora rola escada abaixo se sentindo um menino assustado.
Acredite, isto é muito comum. Durante os anos em que eu trabalho para melhorar a espontaneidade de pessoas que necessitam falar em público, já ouvi muito esta história. É como eu sempre digo aos profissionais que me procuram, só quem pode libertá-los desse medo de se expor, de não se levar tão a sério, de aprender a relaxar, brincar consigo mesmo e com a platéia, é a criança que mora dentro de você. Lembre-se daquela música da banda 14 BIS: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração, toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão...”
Ao sufocarmos esta fonte natural de espontaneidade e trocá-la por uma imagem vendida de pessoas muito sérias e adultas, que temem parecerem fracas quando algo não sai como gostariam, que exigem muito de si mesmas e que confundem seriedade e trabalho e bom humor com irresponsabilidade, estamos mais frágeis do que possamos imaginar.
Negar nossos medos e inseguranças não nos faz mais fortes e seguros.
Fugir do autoconhecimento, pelo incômodo que há em descobrir que apesar da nossa competência profissional também temos receio de fracassar, de não parecermos tão inteligentes e temer a autoexposição, não fará nos sentirmos mais à vontade em estar em público.
O que o Teatro e suas técnicas propõem é um laboratório onde o profissional não ator pode experenciar novas formas de apresentação, de exposição e de criatividade. O jogo teatral faz fluir os entraves emocionais e as sutis barreiras pessoais que prejudicam o bom relacionamento dentro de uma equipe de trabalho. E através da brincadeira e do jogo lúdico, extravasa as tensões diárias, equilibrando o estresse.
E isto é o que tenho dito aos que me procuram e é através do uso de técnicas e exercícios teatrais e de psicodrama, que utilizo em meus cursos, que tenho reforçado a confiança da criança que vive dentro de profissionais e que os faz enfrentar os desafios da autoexposição com mais segurança.
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